Diálogo pode ajudar a diminuir índices de suicídio

25 de setembro de 2018

Janelle Ringer | Melissa J. Pereau é apaixonada por ajudar as pessoas durante períodos críticos em suas vidas, sendo esse o motivo porque ela passa os dias trabalhando com pacientes que pensam em cometer suicídio ou que já o tentaram. Como diretora médica e psiquiatra no Centro de Medicina Comportamental da Universidade de Loma Linda, ela é diariamente confrontada com a realidade do suicídio e de como esse tópico, dentre outros sobre saúde mental, de alguma forma, afeta cada comunidade.

A despeito da prevalência de questões de saúde mental, as tentativas de discutir o tema são muitas vezes rejeitadas devido à sensibilidade que o cerca. Embora o elevado perfil de suicídios recentes nos Estados Unidos tenha suscitado questões que levaram os indivíduos a confrontarem diretamente a questão, o problema é mais amplo.

A taxa de suicídios nos EUA aumentou em 30% desde a metade da década de 1990, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Na média, ocorrem 123 suicídios por dia no país, de acordo com a Fundação Americana para Prevenção do Suicídio.

Conscientização

No Brasil, um dos esforços para diminuir os índices nacionais vem do Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade que atua de forma voluntária em território nacional há 56 anos. De acordo com a instituição, 30 brasileiros cometem suicídio diariamente. Uma das formas de levar o assunto para um debate mais amplo acontece através da campanha Setembro Amarelo.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia em oito países da América do Sul também está envolvida com a prevenção do suicídio. Neste ano, o projeto Quebrando o Silêncio trata justamente deste tema, com conteúdo de orientação e apoio para quem pensa em suicídio e para familiares que precisam lidar com a dor da perda.

O trabalho de Melissa com os pacientes e seus grupos de apoio a motivaram a ser uma voz em favor da conscientização sobre a saúde mental. Seu trabalho na Universidade de Loma Linda, uma instituição adventista do sétimo dia em Loma Linda, Califórnia, Estados Unidos, a expôs a muitos questionamentos dos pacientes, de seus amigos e familiares a respeito da saúde mental e do suicídio. Ela aceitou participar de uma entrevista para discutir as questões de saúde mental, incluindo a busca de apoio, ajuda e ferramentas para o enfrentamento. A seguir, alguns trechos dessa entrevista:

Como um amigo ou familiar de alguém que sofre com questões de saúde mental pode falar com a pessoa de forma não prejudicial?

Certifique-se de não abordar a pessoa de forma crítica. Converse com a disposição de mostrar a sua própria vulnerabilidade e debilidade. Introduzir um ambiente amoroso e atencioso pode ajudá-lo melhor a falar sobre os pensamentos de suicídio ou dos sentimentos de depressão e ansiedade.

Se alguém evita buscar ajuda médica porque acredita que receberá um temido diagnóstico, como ajudar a amenizar o medo de ser rotulado?

Alguém que não deseja se consultar com um profissional de saúde mental porque teme ser rotulado com “doença mental” faz sentido, mas não contribui para a raiz do problema. É o mesmo que não se consultar por temer ser rotulado como diabético. Significa que você segue com a doença. Significa que você ainda necessita de ajuda e é importante que você obtenha a ajuda necessária.

E o que dizer se as circunstâncias de alguém contribuem em muito para sua dor emocional? Como ela pode saber o que causou sua situação e a que se deve a doença mental subjacente?

As circunstâncias da vida podem, definitivamente, contribuir para pensamentos suicidas e a pessoa pode ficar enredada e isolada por essas circunstâncias. Receber apoio e ter pessoas a quem recorrer é o mais importante nessas situações. Não estar só pode ajudar em ambas as situações, quer sofrendo de doença ou circunstâncias mentais.

Há palavras ou frases que você aconselha que as pessoas não usem quando falam a respeito de saúde mental?

É importante não mencionar coisas que levem ao sensacionalismo da doença mental, da saúde mental, detalhes de suicídio ou detalhes da doença. Essas coisas podem ser grandes desencadeadores. Antes, pergunte à pessoa com o que ela está lutando ou o que lhe está causando a dor. Esse tipo de pergunta provê muito mais conforto do que partir para detalhes.

O que é avaliação de saúde mental?

A avaliação pode ser feita de diversas formas e analisa os estressores contínuos atuais e as formas de lidar com esses estressores. Algumas vezes considera as experiências prévias de vida, mas, com frequência, avalia as experiências diárias e o quão distante você pode estar de seu parâmetro ideal. Você pode conversar com um psiquiatra, psicólogo, assistente social, conselheiro ou até mesmo com seu médico.

Os pacientes deveriam ter medo de que os antidepressivos ou medicação psiquiátrica irão mudá-los como indivíduos?

As medicações que tratam doenças mentais não se destinam a transformá-lo em uma pessoa diferente. Elas o ajudarão a voltar a ser o que era antes da doença. Muitas vezes, as pessoas temem dar o tempo suficiente para a medicação fazer efeito. Alguns antidepressivos podem levar até seis semanas ou mais para funcionar; portanto, converse com seu médico para saber o que esperar.

Para alguém com doença mental, o que é melhor: ser tratado com medicação ou fazer terapia?

A melhor estratégia de gerenciamento envolve medicação combinada com aconselhamento e terapias. Essa abordagem de tratamento da “pessoa como um todo” funciona ao levá-lo à raiz do problema e ao equilibrar a química do cérebro.

Como uma pessoa pode começar a lidar com o suicídio de um ente querido?

Permanecer envolvida com outra pessoa, seja participando de um grupo de apoio ou de um pequeno grupo de pessoas de sua confiança. Sempre haverá a tendência de se afastar dos outros, mas possibilidade de desencadear lembranças dolorosas sobre a perda é maior. Esforçar-se por se manter alimentado e por ter hábitos regulares de alimentação, além de fazer exercícios e descansar podem ajudar no alívio da dor.